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Dossiê Cayman mostrou a verdade sobre a CH, J&T

A Polícia Federal provou que a empresa existe e Sérgio Motta era um dos sócios

O que salta aos olhos no inquérito da Polícia Federal aberto para descobrir os supostos falsificadores do chamado Dossiê Cayman, é que ao longo de centenas de páginas, dezenas de depoimentos e diligências, absolutamente nenhuma evidência foi encontrada de que ele é falso, apesar de ser para isso que o inquérito foi instalado.

Ao contrário, nos documentos coletados e nas investigações da PF, evidências é o que não faltam de sua veracidade. Naquilo que a Polícia Federal conseguiu investigar, o dossiê mostrou-se inteiramente é verdadeiro.

A PF provou que a empresa CH, J & T existia e que um de seus donos era Sérgio Motta, caixa de Fernando Henrique, seu sócio há muitos anos, seu ministro favorito, bate-pau e comprador de votos.

Como publicamos em nossa última edição, o delegado federal Washington do Nascimento Melo, chefe da Interpol, foi enviado às Bahamas, onde a CH, J & T está registrada, entrevistando-se com Emerick Knowles, advogado da Trident, uma firma cuja função é a de organizar empresas de fachada em antros fiscais para acobertar ladrões de várias espécies, desde narcotraficantes a assaltantes do Tesouro de seus países. O que se segue é um trecho do relatório do chefe da Interpol ao delegado Paulo de Tarso:

"...foi apresentada ao citado advogado uma cópia do documento publicado em jornais, em que a Trident Corporate Servicies (Bahamas) Limited e a Fregon Corporation nomeiam os senhores Ray Terrence e Sérgio Roberto Vieira da Motta como primeiros diretores da CH, J & T Inc. Perguntado sobre a veracidade do documento, o advogado respondeu de pronto que o documento é verdadeiro, retirando imediatamente de uma pasta uma cópia do mesmo e exibindo-a".

As Bahamas, assim como as Cayman, são um daqueles lugares que alguns desavisados chamam de "paraísos fiscais" - paraísos, evidentemente, só para foras-da-lei e peritos em negócios escusos. Pode-se, neles, como relata o delegado Washington, forjar firmas sem existência real em menos de 24 horas, sem que seus donos sejam conhecidos nem mesmo das autoridades do país, mas apenas do "agente autorizado", isto é, da empresa que forja essas firmas a pedido de um cliente. A Trident é "agente autorizado" de dezenas de milhares de empresas de fachada, cuja única função é possuir uma conta bancária - geralmente, como no caso da "CH, J & T", em outro antro fiscal, para depósitos de origem ilegal.

Quando da divulgação de algumas partes do dossiê, Fernando Henrique e outros haviam feito um escarcéu sobre a "chantagem". E, realmente, os fax enviados a Serra com montagens de documentos são de um chantagista. Porém, isso só agrava o problema: não se faz chantagem com falsidades, mentiras e invencionices. Para que a chantagem seja efetiva, obviamente, é preciso que os fatos que o chantagista ameaça revelar sejam verdadeiros.

Era evidente, desde o início, a qualquer olhar atento, que os fax enviados a Serra sobre a propriedade da "CH, J & T" e de uma conta com US$ 368 milhões num banco das ilhas Cayman, o Coutts Limited, por parte de Fernando Henrique, Covas, Serra, Motta e um certo Ray Terrence, eram montagens com o objetivo de demonstrar ao seu destinatário que o remetente tinha acesso aos documentos verdadeiros ou a cópias deles. Não eram partes do dossiê, mas extratos dele, montados com essa finalidade.

É irrelevante se a assinatura de Sérgio Motta nos fax, ou nos documentos, é verdadeira ou falsa. Aliás, é comum no estabelecimento de empresas de fachada nos antros fiscais que um único elemento as abra e assine não só por si próprio, mas por um ou mais sócios, principalmente quando estes ocupam posições proeminentes, que não querem expor assinando documentos que têm por função realizar operações ilegais. Mesmo porque ninguém precisa de assinatura para operar uma conta nas Cayman, nas Bahamas, na Suíça ou outros lugares semelhantes. Desde o século passado que o mais antigo desses esconderijos de dinheiro, a Suíça, já havia resolvido o problema, com seus códigos secretos. Além disso, seria uma idiotice esperar assinaturas verdadeiras nesse ramo de negócios.

Se falsa, a assinatura de Motta só mostra que o autor dos fax não sabia disso, pois seria muito fácil obter uma verdadeira. Bastaria consultar o Diário Oficial. O que ele sabia é que a assinatura de Motta nos documentos da "CH, J & T" era aquela que enviou a Serra. E, com efeito, o advogado da Trident confirmou que Motta era "diretor" (isto é, um dos sócios) da empresa.

Além disso, a pessoa que assina pela Trident e pela Fregon - outra empresa de fachada formada pela Trident - no documento apresentado ao advogsado, uma funcionária chamada Delcita Austin, não desmentiu que a assinatura fosse sua. Ao contrário, recusou-se a desmentir quando entrevistada pelo jornal "Folha de S. Paulo". Protegendo seu emprego, e talvez mais do que isso, disse que não confirmava, mas que também não desmentia - coisa estapafúrdia, se a sua assinatura fosse falsa.

Usando o endereço de Ray Terrence que consta dos documentos, o mesmo jornal telefonou para sua casa em Nova Iorque. Atendeu alguém que disse se chamar Terence Ray, disse que era "músico" e desligou o telefone. No dia seguinte, procurado no mesmo endereço, havia desaparecido e assim permanece até hoje...

Resumindo: existe a CH, J & T; o advogado do seu "agente autorizado", a Trident, confirma que Motta era um dos seus sócios; existe a Delcita Austin que assina pela Trident e pela Fregon a nomeação de Motta como diretor, em documento datado do dia seguinte à constituição da CH, J & T; a mesma Delcita não desmente que a assinatura seja sua; na casa onde moraria o outro "diretor", Ray Terrence, é achado um Terence Ray que em seguida desaparece.

E, de forma impressionante, os documentos cujas cópias constam do dossiê correspondem, como comprovou a PF, às exigências da legislação do país onde a CH, J & T tem sede, ainda que virtual, em minúcias.

A redação

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