Secretário de FH (ambos na foto) falou 138 vezes com Nicolau por telefone O mandato de Luís Estevão foi encerrado na última quarta-feira pelo Senado. Cinqüenta e dois senadores votaram pela cassação, contra dezoito, com dez abstenções. A agonia parlamentar e judicial do então senador iniciou-se com a CPI do Judiciário, que segundo seu mentor - o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães - tinha o objetivo de investigar supostas irregularidades no Judiciário A única irregularidade de alguma importância que a CPI conseguiu detectar, referia-se à construção do novo prédio do TRT de São Paulo, empreendida por um juiz de nome Nicolau, uma obra infinita no tempo e talvez no espaço, onde se comprovou um desvio de recursos públicos de R$ 169 milhões.NICOLAU Nicolau tinha um cúmplice nas fraudes em torno da construção infindável do interminável prédio: o dono da Incal, empresa que o construía, Fábio Monteiro de Barros. Porém, nas investigações, comprovou-se que, por sua vez, Monteiro de Barros tinha também um parceiro, que, segundo alguns indícios, seria o verdadeiro dono da Incal: um dos pares do patrocinador da CPI que iria apurar irregularidades no Judiciário, precisamente, o senador Luís Estevão. Este também tinha um outro cúmplice: o então secretário-particular de Fernando Henrique e chefe de sua campanha, Eduardo Jorge, que ocupava uma sala ao lado à do seu chefe. A CPI preferiu ficar em Estevão. Eduardo Jorge nem mesmo foi chamado para depor. No entanto, é provável que, ao acertar no que não pretendia, o senador AntônioCarlos Magalhães haja prestado um serviço, ainda que involuntário, ao país demonstrou de forma brilhante que pode-se investigar qualquer fiapo de corrupção, em qualquer parte, que mesmo sem querer acaba-se inevitavelmente batendo no Planalto. Se não bater lá é porque a corrupção não deve ser verdadeira.EDUARDO JORGE Afinal de contas, quem liberou as verbas para o prédio do TRT não foi nem o Nicolau, nem o Estevão, nem o Monteiro de Barros. Foi o Planalto. A cadeia de cúmplices que descrevemos acima não é uma imagem exata. Não se tratava de nenhuma corrente igualitária da ladroagem. Havia uma figura central, em torno da qual giravam as outras: Nicolau comunicava-se diretamente com Eduardo Jorge, assim como Luís Estevão. No levantamento feito pela CPI dos telefonemas de Nicolau, havia 138 telefonemas para Eduardo Jorge, dados para os seus telefones no Palácio do Planalto, no comitê de campanha de Fernando Henrique e em casa. O que eles discutiam? O efeito da conjunção de Saturno e Netuno nas flores de Brasília? O próprio Nicolau esclareceu - o que, aliás, nem precisava ter feito, pois é óbvio que seu assunto com Eduardo Jorge era a liberação de verbas federais para o prédio do TRT. Eduardo Jorge não desmentiu, até porque era impossível. Ao contrário, confirmou, dizendo que tinha falado com o juiz em virtude das funções oficiais de ambos. A função oficial de Nicolau era a de chefe da comissão de edificação do prédio do TRT. Até mesmo deixou a presidência do Tribunal para exercê-la em tempo integral. A de Eduardo Jorge, como secretário, era a de liberar verbas federais de acordo com os interesses de seu chefe. E haja verbas federais, pois o prédio ultrapassou todos os limites - de tempo e de custo - e o dinheiro continuou chegando. Eduardo Jorge foi secretário de Fernando Henrique durante mais de 20 anos. Coma única exceção - talvez - de Sérgio Motta, era o elemento mais próximo de Fernando Henrique. Depois da morte de Motta, ficou com esse troféu sem nenhum competidor. Como ele mesmo disse, "durante anos eu via mais o chefe do que à minha mulher". Em 1978, na primeira eleição em que Fernando Henrique apareceu, Eduardo Jorge já era seu caixa. Na última, ao colocá-lo para coordenar a sua campanha, declarou que Eduardo Jorge era "meu homem na campanha". No Planalto, ele dedicou-se ostensivamente a três atividades: a manipular os fundos de pensão das estatais - a maior mina de dinheiro vivo da administração -, a filtrar as indicações para cargos no governo e a tratar dos pedidos de liberação de verbas. Naturalmente, nunca teve qualquer poder próprio. A sala ao lado da sua é que lhe conferia tais prerrogativas. Há apenas um mês, oficialmente sem qualquer função no governo, ele reapareceu comprou um apartamento em São Conrado, bairro rico no Rio, no Condomínio Praia Guinle, onde o menor preço de um imóvel está por volta de um milhão dedólares. Sabe-se quanto ele recebe de aposentadoria por mês: R$ 8,5 mil. Porém, disse ele, depois de afastar-se "estrategicamente" do governo, teria virado consultor de grupos privados. Mas "continuo cuidando das coisas do chefe". E exemplificou: "converso toda semana com o chefe, por telefone ou pessoalmente, tratando das contas de campanha e cuidando dos negócios", além de estar "marcando audiências" de seus clientes com Fernando Henrique. Portanto, deve ser o "consultor" mais bem sucedido da praça. Com efeito, ninguém aventou a possibilidade de que ele tivesse adquirido um apartamento de um milhão de dólares com a sua aposentadoria. Existem muitos malucos no mundo, mas nem tão malucos assim.DEFESA Na terça-feira, finalmente, depois que Estevão já estava com os dois pés no patíbulo, Eduardo Jorge sentiu-se seguro para fazer uma suposta defesa dele. Como é tradicional, mesmo os condenados à forca têm o direito de falar antes do momento final. Sua "defesa" foi apenas uma tentativa de fazer com que Estevão não falasse o que ele temia que falasse. Assim, confirmou a única coisa que Estevão deixou escapar sobre suas atividades conjuntas: que os dois tramaram o favorecimento de um jornal governista com dinheiro público. Mas esclareceu: "encaminhei o pedido ao Banco do Brasil, mas nem acompanhei". Parece até que ele, que falava em nome de Fernando Henrique, e só em nome de Fernando Henrique falava, precisava acompanhar um "pedido" ao Banco do Brasil, para que fosse atendido.NEBULOSA Depois de elogiar a "inteligência" de Estevão, reclamou: "vejo um perigo sério para a democracia". Para a democracia? Que perigo é esse que a democracia correria com a cassação de um senador corrupto? Evidentemente, não é a democracia que correria perigo se Eduardo Jorge fosse chamado a explicar a sua relação com Nicolau e Estevão, qual o seu papel na liberação das verbas - e a troco de quê e quem lhe dava poder para que recorressem a ele. Como ele não existe e nunca existiu sem o "chefe", sendo meramente uma espécie de apêndice dele, já se vê onde mora o perigo. Disse também que "o drama porque ele [Estevão] passa não alterou nossa relação de amizade", mas que "não existe relação perigosa ou nebulosa entre nós". Realmente, cada vez mais essa relação está deixando de ser nebulosa. Mas não porque ele queira, muito ao contrário. E o perigo, mencionado pela segunda vez, somente pode ser o de que essa relação deixe completamente de ser nebulosa e apareça à luz do dia. Quanto a Nicolau, disse ele que "recebi o juiz, mas foi pelas vias institucionais". Bom, se foi pelas vias institucionais - ou seja, pela via da instituição denominada Presidência da República - tudo bem. Está tudo explicado. CARLOS LOPES |