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Irmãos Ferraz são o elo entre Cayman-Eduardo Jorge-Lalau

O Ferraz de São Paulo (Incal/Lalau) recebia o dinheiro e o de Miami (Overland) o guardava

O governo anunciou que vai contratar um escritório de advocacia norte-americano,o Arnold & Porter, para rastrear as contas e negócios do ex-juiz Nicolau nos EUA. O interessante nesse anúncio não é a evidente encenação, a tentativa de passar para a opinião pública, enojada, que o governo está fazendo alguma coisa para apurar o escândalo Eduardo Jorge, ou que tem algum interesse nisso - se tivesse não tentaria abafá-lo de todas as formas. O interessante é que o escritório Arnold & Porter é o mesmo citado no Dossiê sobre as contas secretas de Fernando Henrique, Motta, Covas e Serra nas ilhas Cayman. Uma das mensagens enviadas a Serra pelo suposto chantagista, em 1998, cita explicitamente a firma. O motivoestá no dossiê: a cópia de uma carta de Sérgio Motta, sócio de Fernando Henrique, a um advogado da firma, aprovando as condições para a abertura da conta no Coutts Cayman. O objetivo do papel recebido por Serra era, evidentemente, o de demonstrar ao círculo governista até que ponto seus autores estavam informados das transações em torno das contas secretas.

INCAL

Realmente, há todos os motivos para se acreditar que eles estavam bem informados. E não apenas porque a Polícia Federal comprovou, através do delegado Washington Melo, chefe da Interpol, que Motta era um dos proprietários da CH, J & T, a empresa-fantasma que tinha a conta com US$ 368 milhões.

Também não apenas porque, como publicou o jornal "Folha de S. Paulo", Eduardo Jorge teria informações vindas da PF - e não reveladas no inquérito oficial - sobre as contas nas Cayman.

Foi isso que emergiu junto com o caso do prédio do TRT-SP: um dos sócios e vice-presidente da Incal, empresa que era a responsável pela construção do edifício e cuja conta bancária era usada para depositar o dinheiro que o Planalto liberava - e para desviá-lo, entre outros para Nicolau e Estevão - chama-se José

Eduardo Ferraz.

Esse Ferraz é irmão de outro, José Maria, morador em Miami e, por sua vez, sócio de outra empresa, a Overland Advisory Services. O negócio dessa última é abrir empresas de fachada nas Bahamas, Cayman e outros bordéis fiscais, com contas secretas devidamente recheadas. Um dos principais papéis do Dossiê Cayman é, precisamente, um papel timbrado da Overland (ver fac-símile na primeira página desta edição) descrevendo a vertiginosa movimentação financeira secreta de Fernando Henrique, Motta, Covas e Serra.

Os donos da Overland - além de José Maria Ferraz, Oscar de Barros - foram acusados pelo círculo do Planalto de terem fabricado o dossiê. Como se recordarão muitos dos nossos leitores, no primeiro momento isso não nos pareceu provável, porque todos os indícios eram de que a Overland teria aberto para Motta a empresa, registrada nas Bahamas, e a sua conta nas Cayman. Havia mais um dado a confirmá-lo, quando se soube que a Overland estava envolvida num caso de intermediação de suborno de "autoridades brasileiras" por uma empresa americana, a MetroRed, especializada em instalar fibras óticas para Processamento de dados. A MetroRed instalou-se no Brasil com total isenção de impostos, taxas ou qualquer pagamento. Quem concedeu esse benefício extraordinário foi o então ministro das Comunicações, Sérgio Motta. Portanto, o

suborno da MetroRed era uma ligação entre José Maria Ferraz e Oscar de Barros com Sérgio Motta e o grupo de Fernando Henrique.

O caso Eduardo Jorge só faz confirmar essa nossa conclusão: o secretário de Fernando Henrique, seu homem de absoluta confiança e caixa de campanha - só equiparável nessas funções a, exatamente, Sérgio Motta -, liberava dinheiro, conseguido com pedidos assinados por Fernando Henrique, para o prédio do

Nicolau. O desvio comprovado foi de R$ 169,5 milhões. E quem era o receptor desse dinheiro? A Incal, que tinha como um dos sócios o irmão de um dos donos da Overland de Miami. Para completar, Eduardo Jorge colocou como advogados da Incal - ou seja, do Ferraz de São Paulo - dois de seus irmãos e uma sua sobrinha.

Mas os berros histéricos de Fernando Henrique e cia. sobre "chantagem" no caso

Cayman chamaram a atenção para um aspecto: como dissemos há dois anos, não se faz chantagem com acusações falsas e documentos forjados. Um chantagista que fizesse isso seria um imbecil completo e juramentado, pela simples razão de que não conseguiria o seu objetivo. Por isso, desde o princípio, nos pareceu inteiramente suspeita - e, depois do inquérito da PF, falsa - a versão de Fernando Henrique. Mas também nos pareceu, no início, que por essa mesma razão era pouco provável que a chantagem tivesse sido feita pelos que abriram a conta - os donos da Overland, tal como dizia o Planalto.

O caso Eduardo Jorge, com a liberação de milhões para uma empresa que tem como um dos donos um irmão de um sócio da Overland, traz mais luz sobre o assunto: o Ferraz de São Paulo, isto é, da Incal, recebia o dinheiro para ser desviado, a maior parte dele para o exterior. O Ferraz de Miami, isto é, da Overland, cuidava do dinheiro que era desviado para fora do Brasil.

Logo, por parte do bando de Fernando Henrique, numa ponta atuava Eduardo Jorge; na outra, Sérgio Motta. Exatamente os elementos mais próximos e de maior confiança do chefe do bando. Aliás, apesar de Motta ter se atritado com Deus e o mundo, inclusive e sobretudo com outros tucanos, é desconhecido

qualquer conflito seu com Eduardo Jorge, o que não deixa de ser um fenômeno.

Os dois esquemas - o interno e o externo - estouraram quase ao mesmo tempo, em 1998, o externo antes do interno.

Por quê? O que mudou? A única mudança foi que uma das pontas, precisamente a que controlava o esquema externo, foi prestar satisfações ao diabo: Sérgio Motta morreu em abril de 1998. Em seguida, no segundo semestre desse ano, Serra recebeu mensagens como: "Consideramos importante para V. Ex.a., ter

conhecimento de que o seguro de saúde CH, J & T continua em pleno funcionamento nos locais onde opera, a saber, Cayman e Zurique, através das instituições autorizadas, Coutts e Schroders. Como se vê, não ocorreu solução de continuidade...".

CHANTAGEM

O que é isso? Uma chantagem? Por que o suposto chantagista insiste tanto em que o esquema "continua em pleno funcionamento" e em frisar que "não ocorreu solução de continuidade"? Por que ele parece agir como um executivo ou administrador financeiro comunicando a um cliente que seus negócios continuam indo de acordo com o previsto?

A resposta é que se trata realmente de um "administrador" que quer comunicar alguma coisa a um cliente, ainda que por um meio pouco ortodoxo. A gritaria em torno de "chantagem" era, exatamente, porque sabiam que o Dossiê era verdadeiro. As acusações aos donos da Overland eram porque o bando sabia a

sua origem desde o princípio.

Motta montou o esquema de desvio e lavagem através da Overland. Esta, como mostra o papel timbrado que reproduzimos na capa desta edição, montou e administrava o esquema. Caso contrário, seria impossível ter um conhecimento tão amplo dele. Naturalmente, a Overland - isto é, José Maria Ferraz e Oscar de

Barros - recebiam pelo seu trabalho. Mas quem fazia as tratativas com a empresa de Miami era Motta. Uma vez morto, como os donos da Overland iriam receber por seus serviços? Teria que haver um substituto - mas não houve.

Acontece que Motta, como apontamos por ocasião de sua morte, era um especialista em armações variadas, mas era menos hipócrita do que seus colegas. Era um trambiqueiro, mas não um fariseu desses que fazem absoluta questão de posar de vestais no meio da zona do meretrício - como Fernando Henrique, Covas e Serra. Nenhum deles tinha ou tem a sua desenvoltura nessas atividades. De certa forma, ele era menos degenerado do que esses fariseus. Para Motta era indispensável acreditar que estava fazendo alguma coisa muito importante para a causa pública - assim justificava para si mesmo, por exemplo, comprar votos de deputados no golpe da reeleição e montar o esquema com a Overland. Mas não lhe era indispensável acreditar-se uma virgem imaculada e eterna. Sabia que não era, e não fazia questão de que acreditassem que era.

BRIGA

Por isso, Motta era e permaneceu insubstituível. E a Overland ficou sem receber o que lhe era devido por seus préstimos. Nenhuma das vestais queria assumir o que Motta assumia - colocar as mãos na sujeira, sem possibilidade de fingir que a porcaria era Chanel número cinco. Queriam e querem dinheiro. Roubam o Estado e o Erário. Entregam até a mãe pelo patrimônio público. Mas sempre afetando o ar de quem acabou de fazer a primeira comunhão. O substituto escolhido para Motta, Mendonça de Barros, outra vestal de lupanar, foi um fracasso: uma outra mensagem enviada a Serra refere-se a isso, mencionando a viagem de Mendonça

a Madri.

Na falta de Motta, sem ter como receber a sua comissão, as mensagens para o bando, através de Serra, foram o método que os donos da Overland encontraram para cobrar a dívida. O Dossiê era o seu trunfo. Mas sem Motta tudo ficou complicado. Como acontece nesses casos, resolveram ressarcir-se vendendo o Dossiê. Por isso ele era tão verdadeiro: porque era mesmo verdadeiro. Por isso a PF acabou comprovando-o naquilo que conseguiu investigar: porque havia sido organizado pelos próprios confeccionadores e administradores do esquema.

Nesse ínterim, a morte de Sérgio Motta provocou outra conseqüência: os membros do bando começaram a brigar pela primazia. Eduardo Jorge, inconformado pela predominância de Mendonça no primeiro momento, passou-lhe uma rasteira na negociata das Teles, exatamente a armação que Sérgio Motta não teve tempo de

concluir. EJ apoiou, com o aparato dos fundos de pensão das estatais, que tinha sob coleira, um grupo rival ao de Mendonça, Lara Resende, Arida do Opportunity e outros próceres fernandistas. Morto de ciúmes pela ascensão de Mendonça no mundo do crime, Eduardo Jorge se dedicou a mostrar publicamente que seu desafeto era um indivíduo despreparado para a função. Até hoje Mendonça o acusa de ter vazado as gravações do grampo do BNDES, que revelaram a negociata da Telebrás. Não duvidamos. Ele atirou precisamente onde era fatal: na pose de vestal de Mendonça. E acabou com ele.

Mas se tudo isso aconteceu, era porque Eduardo Jorge estava perfeitamente por dentro do esquema central de corrupção do grupo palaciano. Estava tão por dentro que a CPI do Judiciário inventada pelo senador Antônio Carlos Magalhães, ao pegar inadvertidamente um tal de Nicolau, que parecia apenas um corrupto vulgar, acabou revelando o começo da trilha que vai do Planalto às Cayman.

CARLOS LOPES

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