Quanto mais os agentes da Polícia Federal se aproximavam de informações decisivas sobre a empresa, mais intensas se tornaram as pressões e as chantagens exercidas por Fernando Henrique. A sabotagem às investigações dos federais culminou com a demissão de Vicente Chelotti da chefia do órgão, transformando a sua sucessão em uma questão de vida ou morte para manter debaixo de sete chaves os "negócios" nas Cayman. Numa de suas viagens ao Caribe, no início desse ano, o delegado Vicente Chelotti apresentou um dos documentos do dossiê - que atribuía a Sérgio Motta e a uma pessoa de nome Ray Terrence as funções de primeiros diretores da CH, J&T - ao advogado da Trident (representante da CH,J&T no Caribe ) Emerick Knowles. Este reagiu da seguinte forma, segundo o inquérito da PF: "Respondeu de pronto que o documento é verdadeiro, retirando imediatamente de uma pasta uma cópia do mesmo, exibindo-a ao delegado". O relatório final do inquérito 003/98, aberto em novembro do ano passado pela Polícia Federal, tem mais de 700 páginas e foi parcialmente divulgado, no último fim de semana, pelo jornal "Folha de S. Paulo". Segundo o inquérito, o advogado da Trident, enviou também à Polícia Federal uma carta com o seguinte teor: "O documento (em questão) foi preparado por nosso cliente (Trident) para ser concluído por parte de seu cliente intermediário (CH,J&T)". Como permaneceram algumas dúvidas, a Polícia Federal buscou obter mais informações junto a Trident. O sr. Emerick Knowles, segundo o mesmo inquérito, respondeu às novas investidas da PF afirmando que "tais informações poderiam ser obtidas judicialmente por meio de Cartas Rogatórias". O inquérito revelou mais: que, além do advogado da Trident, também as autoridades judiciais e policiais do Caribe sugeriram à Polícia Federal que a "Carta Rogatória" era a melhor forma de obter as informações finais sobre a composição acionária da CH, J&T. Em fevereiro a Polícia Federal, de posse dessas informações, decidiu apertar o cerco e solicitou ao Juiz Marcus Vinicius Reis, da 6ª vara de Justiça de Brasília a expedição de quatro Cartas Rogatórias. Com essa decisão a PF estava muito perto de esclarecer definitivamente quem eram os verdadeiros donos da CH,J&T. Fernando Henrique, ao sentir o cerco movido pela Polícia Federal, enviou, em 5 de maio, uma carta ao Ministro da Justiça, afirmando que os papéis do dossiê Cayman eram "manifestamente falsos" e pede providências à Procuradoria Geral da República para o indiciamento dos supostos responsáveis pela sua divulgação no Brasil. A iniciativa de FH visava paralisar a investigação da Polícia Federal. O Procurador Luiz Augusto de Santos Lima atendeu às ordens do Planalto e, baseado em análises "amplamente divulgadas pela imprensa", afirmou, 48 horas após as solicitações de FH, que "são claras as evidências de que os documentos foram montados". O juiz Federal do caso, Marcus Vinicius Reis Bastos, que havia emitido as Cartas Rogatórias, pressionado, acata os pedidos de indiciamento, feitos pelo Planalto, considera que não são necessárias averiguações adicionais para comprovar veracidade ou falsidade dos papéis do dossiê e determinou o fim das investigações. "Cessou toda a atividade policial", declarou na época o delegado Paulo de Tarso Teixeira, responsável pelo caso na PF. Logo depois desses fatos, Fernando Henrique demitiu Vicente Chelotti do cargo de diretor da PF. Chelotti, que havia no início - por pressão do Planalto - anunciado que comprovaria sem dificuldades, que o dossiê Cayman era falso, acabou chegando à conclusão de que realmente a CH,J&T, existia de fato. E também que a empresa nas Cayman tem mesmo sócios brasileiros e que ela foi fundada em 19 de janeiro de 1994, época em que Sérgio Motta era sócio de FH e responsável pelo "caixa" do grupo. Não só no caso Cayman houve interferência de FH para tolher as investigações e ações da Polícia Federal. Quando a PF acompanhou a diligência de apreensão dos documentos de Chico Lopes no escândalo da doação de dinheiro ao Banco Marka, o governo demitiu logo depois o superintendente do órgão no Rio de Janeiro. Não foi por outro motivo que aconteceu toda essa confusão em torno da indicação do novo chefe da PF. Com as investigações paralisadas e a demissão de Chelotti consumada, Fernando Henrique achou que podia voltar todas as suas atenções para a nomeação de alguém, obediente ao Palácio do Planalto, que concordasse em manter tudo em segredo. Foi por isso que ele saiu atropelando tudo, criando arestas com todo mundo para indicar o novo superintendente-geral da PF. Ele não abriu mão e, depois de três meses procurando alguém, nomeou um torturador para o cargo. Pensou que assim estaria seguro. Deu com os burros nágua. O bate-pau dele na PF não agüentou nem três dias. SÉRGIO CRUZ |