Até onde conseguiu investigar, a Polícia Federal descobriu que o Dossiê das Cayman é verdadeiro O inquérito aberto pela Polícia Federal para investigar o Dossiê Cayman não chegou ao fim. Mas há nele uma conclusão, que o chefe do inquérito, delegado Paulo de Tarso, tornou explícita ao pedir à Justiça que expedisse cartas rogatórias às Bahamas e às Cayman, para que estes países confirmassem se Fernando Henrique, Covas e Serra eram sócios da CH, J & T e se tinham contas nos bancos daqueles lugares. Aliás, foi exatamente por ter chegado a essa conclusão, depois de criteriosas diligências, inclusive com a ida às Bahamas do chefe da Interpol, que o delegado solicitou que a Justiça expedisse as cartas rogatórias. Como se pode ler no volume II, folhas 427 a 440 do inquérito, depois de relatar o seu trabalho, o delegado da Polícia Federal afirmou que "havendo indícios suficientes da prática de crimes previstos na legislação ordinária brasileira, cujo total esclarecimento é de suma importância para o Brasil, haja visto envolver assunto de grande relevância nacional, e principalmente em razão do estágio no qual se encontram as investigações", o único meio de se prosseguir era precisamente pela expedição das cartas rogatórias. Foi neste estágio das investigações que Fernando Henrique obstruiu o trabalho da PF, primeiro pressionando a Procuradoria e depois pedindo a abertura de processo contra os supostos divulgadores do dossiê, o que implicava no abortamento do inquérito e da continuação das investigações, tal como o delegado pedia. É óbvia, lendo-se o inquérito, a razão pela qual Fernando Henrique interferiu. Exatamente, para usar as palavras do delegado, "em razão do estágio no qual se encontram as investigações". Os "indícios suficientes da prática de crimes" a que se referiu o delegado Paulo de Tarso eram, além da copiosa documentação - reproduções de documentos que correspondem minuciosamente às exigências legais dos países em questão -, o fato de que nenhuma das diligências da Polícia Federal mostrou qualquer traço de falsificação no dossiê. Ao contrário, a PF conseguiu demonstrar naquilo que conseguiu checar, que ele era verdadeiro. Antes de tudo, a PF provou que o sócio de Fernando Henrique, Sérgio Motta, era também, tal como afirmava o dossiê, um dos sócios da CH, J & T, empresa com uma conta de US$ 368 milhões num banco das Cayman, o Coutts Limited. Como disse o chefe da Interpol, Washington do Nascimento Melo, em seu relatório ao delegado Paulo de Tarso, ao chegar às Bahamas, a Trident, companhia especialista em empresas de fachada e "agente autorizado" da CH, J & T, o encaminhou ao seu advogado, Emerick Knowles. Então, "foi apresentada ao citado advogado uma cópia do documento publicado em jornais, em que a Trident Corporate Servicies (Bahamas) Limited e a Fregon Corporation nomeiam os senhores Ray Terrence e Sérgio Roberto Vieira da Motta como primeiros diretores da CH, J & T Inc. Perguntado sobre a veracidade do documento, o advogado respondeu de pronto que o documento é verdadeiro, retirando imediatamente de uma pasta uma cópia do mesmo e exibindo-a". Em suma, essa era a situação: a pedido de Fernando Henrique, a PF havia aberto um inquérito para descobrir os supostos falsificadores do dossiê; no correr das investigações, ao invés de encontrar provas da falsificação, o que não seria nada difícil se ela existisse, a PF encontrou inúmeros indícios de que o dossiê era verdadeiro: a empresa existia, estava realmente registrada nas Bahamas e sua operadora era mesmo a Trident; por último, encontrou uma prova - não mais um indício - de sua veracidade: segundo o próprio representante da Trident, dois dos sócios que constam nas cópias dos documentos, eram realmente sócios ("primeiros diretores") da CH, J & T, sendo um deles o sócio de Fernando Henrique, Sérgio Motta. Não era possível outra conclusão, senão a que o delegado Paulo de Tarso chegou: que haviam "indícios suficientes da prática de crimes previstos na legislação ordinária brasileira". Não era possível, também, a um policial criterioso, outro encaminhamento senão o que foi dado: solicitar as cartas rogatórias para confirmação da veracidade do resto do dossiê. Como disse o delegado, o "total esclarecimento é de suma importância para o Brasil, haja visto envolver assunto de grande relevância nacional". Qualquer brasileiro acharia - e acha - isso. Elementos que ostentam títulos como o de presidente, governador do Estado mais industrializado e ministro com contas milionárias em um antro fiscal, além de sociedade numa empresa de fachada em outro, significa que a Nação - seu Tesouro, seu patrimônio e suas riquezas - está entregue a um grupo de bandidos. E, pelo que eles fizeram com o Tesouro, o patrimônio e as riquezas nacionais, é impossível fugir a essa constatação. Porém, as contas são a prova cabal não somente do crime, mas de seu cinismo, de sua impostura e corrupção. Para quem sempre disse que destruía o país e doava as suas riquezas "sem qualquer interesse pessoal", a ninguém interessaria mais que as investigações fossem até o fim do que a Fernando Henrique. Por que então Fernando Henrique não deixou continuar as investigações que ele próprio pediu que fossem abertas? Simplesmente porque a PF não fez o que ele queria e esperava que ela fizesse. Logo que se descobriu que Sérgio Motta era sócio da CH, J & T, ele se apressou - e desesperadamente - a encerrar o inquérito. Se ele não tem contas nas Cayman, nem é sócio da CH, J & T, por que abortou a investigação? Por que demitiu o diretor da PF, apenas 14 dias após o pedido à Justiça, tornando a nomeação do seu substituto uma - com perdão da palavra - cachorrada política? Por que agora resolveu fazer uma "reforma ministerial" cuja única alteração que realmente conta é a de demitir o ministro da Justiça que se opôs à nomeação do torturador que ele queria impor à PF como diretor? CARLOS LOPES |