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Eduardo Jorge confessa conexão do Palácio do Planalto com Lalau

Dos R$ 169 milhões desviados do prédio do TRT, com quem ficaram os R$ 90 milhões restantes?

As declarações de Eduardo Jorge de que Nicolau dos Santos Neto, o infatigável e interminável empreendedor do prédio do TRT de São Paulo, era um grande colaborador do governo, dedurando candidatos a juiz trabalhista para que Fernando Henrique nomeasse apenas os mais submissos - que votassem a favor de qualquer indecência salarial -, seriam por si só estarrecedoras, se não fossem uma tentativa de esconder atividades mais criminosas ainda. É evidente que se o braço direito - e dizem que também esquerdo - de Fernando Henrique preferiu confessar que exercia atividades inconfessáveis, é porque há algo de muito mais grave, e de muito mais inconfessável, que ele quer esconder. Nenhum escroque confessa um crime, senão para ocultar outro muito maior.

TELEFONEMAS

Desde que Nicolau tornou-se um foragido e Luís Estevão foi cassado, o que estava faltando desde o começo tornou-se cada vez mais visível: quem forneceu o dinheiro público a eles. Pois nem Estevão nem Nicolau podiam liberar verbas públicas. Quem podia fazê-lo era o governo. E quem, dentro do governo, foi encarregado por Fernando Henrique de mercadejar liberações de verbas, era seu secretário particular, Eduardo Jorge - diretamente da sala ao lado da sua.

Estevão e Nicolau telefonavam mais para Eduardo Jorge do que para suas esposas. Só Nicolau fez 138 ligações para o elemento que Fernando Henrique chamou de "meu homem na campanha eleitoral". Pode-se imaginar o quanto Eduardo Jorge - que ainda não teve seu sigilo telefônico quebrado - telefonava para eles.

Que relações eram essas, tão íntimas? De Luís Estevão, é sabido que Eduardo Jorge era inseparável. Até mesmo tinha um apartamento em Brasília adquirido, supostamente, da construtora de Estevão. Juntos, promoviam privilégios e benesses para apaniguados, às custas do Banco do Brasil. Até mesmo a equipe de Estevão no Senado foi fornecida por Eduardo Jorge: depois que o primeiro foi eleito senador, Eduardo Jorge colocou no seu gabinete senatorial três dos principais assessores que o tinham servido no Planalto.

Quanto a Nicolau, já houve quem aventasse a hipótese do secretário da Presidência ter liberado os milhões para a infinita obra do prédio do TRT porque, provavelmente, é a única obra conhecida do governo Fernando Henrique, ainda que jamais terminada. Mas agora ele esclareceu que não: Nicolau seria um dedo-duro, confeccionando relatórios para que Fernando Henrique nomeasse somente indivíduos sem a menor independência na magistratura trabalhista.

DEDO-DURO

Resta saber em troca de que Nicolau realizava esse deprimente serviço. Algumas fontes de Brasília garantem que foi por idealismo. Aliás, tal como Eduardo Jorge, tudo o que ele faz é por elevado altruísmo...

Porém, durante a época em que Nicolau teria feito seus relatórios e os dois se falavam mais ao telefone do que namorados em fase de altos hormônios, foram liberados R$ 231 milhões para o prédio do TRT. Donde conclui-se que Nicolau é o dedo-duro mais caro de toda a história dos alcagüetes, recebendo esse dinheiro todo para revelar informações que já eram sabidas, pois se há algo que nunca foi segredo entre os possíveis candidatos a juiz classista era, exatamente, qual a posição de cada um sobre os salários de fome. Mas durante o período em que Nicolau teria "ajudado" assim o governo, foram nomeados apenas uma meia-dúzia de juízes. Portanto, Eduardo Jorge pagou R$ 231 milhões - R$ 169 milhões dos quais foram desviados - em troca de informações conhecidas, para que Fernando Henrique nomeasse menos do que uma dezena de juízes. Depois de uma explicação dessas, só os indivíduos muito mal intencionados poderão ainda desconfiar de que uma parte substancial do dinheiro tenha ido parar em contas nas Cayman. Calúnias, calúnias e calúnias.

CAYMAN

No entanto, foram desviados R$ 169 milhões. Nas contas bancárias de Nicolau no exterior foram encontrados cerca de R$ 11 milhões. Nas contas do grupo de Estevão, acharam-se R$ 68 milhões provenientes da empresa que construía o prédio. São, portanto, ao todo, R$ 79 milhões. Faltam, portanto, R$ 90 milhões.

Onde estão esses R$ 90 milhões, aliás, a maior parte do dinheiro desviado? Quem ficou com essa parte? Estaria ela num certo banco - ou em qualquer um – nas ilhas Cayman? Ou na Suíça? Ou numa outra certa ilha do canal da Mancha?

É pouco provável que Nicolau tenha gasto todo esse dinheiro comprando carros esporte Maserati ou provectos Rolls-Royce, seu passatempo favorito. Nem o sheik do Kuwait conseguiu essa proeza. Mesmo que o embolsador desse dinheiro tivesse comprado um apartamento como o que Eduardo Jorge comprou - US$ 1,2 milhão ao preço de mercado - ainda sobraria dinheiro para comprar uns 80 apartamentos de mesma categoria. E, como se sabe, Eduardo Jorge precisou apenas da sua aposentadoria de R$ 8,5 mil, mais a da mulher e mais um empréstimo de R$ 300 mil para adquirir a nababesca residência de US$ 1,2 milhão. Um rapaz muito econômico. Não é à toa que ele é economista.

IRB

Segundo suas próprias declarações há apenas algumas semanas, ele hoje "continua cuidando das coisas do chefe, das contas de campanha, dos negócios do chefe". Também tornou-se sócio do grupo Meta, um dos doadores da campanha de Fernando Henrique. Recebeu 10% das ações do grupo em troca de "serviços prestados". Que serviços? Não se sabe, mas em compensação se sabe que função ele exerce hoje lá: arrumar um sócio estrangeiro para que o Meta abocanhe o Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), estatal que é a seguradora de todas as seguradoras, um negócio que envolve bilhões de reais, ou melhor, de dólares. Para alguém que nunca teve poder nenhum, exceto o que vinha do chefe, e sempre foi um pé-rapado, é um verdadeiro fenômeno parapsicológico. Maior até do que o prédio que nunca acabava, mas sempre era regado a dinheiro público inclusive os R$ 90 milhões que desapareceram, certamente tragados pela quarta dimensão.

CARLOS LOPES

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