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FH impediu investigações da PF nas ilhas Cayman

Quando estavam para ser emitidas as cartas rogatórias,

Fernando Henrique brecou as investigações das Cayman

Fernando Henrique Cardoso intensificou as suas manobras para abortar as investigações sobre o Dossiê Cayman logo após o encarregado do Inquérito da Polícia Federal, delegado Paulo de Tarso, ter solicitado à Justiça Federal a emissão das cartas rogatórias - documentos considerados decisivos pela PF - para o esclarecimento completo das denúncias envolvendo a participação de Fernando Henrique, Sérgio Motta e outros membros de seu governo na empresa C H, J&T, localizada nas Bahamas.

O delegado federal Washington do Nascimento Melo, chefe da Interpol, enviado ao Caribe em dezembro de 98, descobriu, em suas diligências, que a C H, J&T realmente existia, possuía sua sede em Nassau nas Bahamas e tinha como sócios e primeiros diretores, nada mais do que Sérgio Motta, caixa de Fernando Henrique e seu sócio há muitos anos e um tal Ray Terrence, residente em Nova York.

A descoberta da Interpol, conseguida em audiência com o advogado da Trident (agente autorizado a representar a CH, J & T nas Bahamas) Emerick Knowles e descrita em detalhes no relatório do delegado Washington Melo (fls 196/200 ), encaminhado ao delegado Paulo de Tarso, levou a Polícia Federal a ampliar as suas investigações sobre o dossiê Cayman. A decisão criou um verdadeiro pânico nas hostes do Palácio do Planalto e desencadeou o mais torpe e escandaloso jogo de pressões e chantagens já visto por parte de um presidente da República sobre as instituições da Polícia Federal, do Ministério da Justiça, do Ministério Público e da Justiça Federal.

Em janeiro, o delegado Vicente Chelotti, diretor-geral da Polícia Federal, embarcou para o Caribe com o objetivo de obter informações sobre quem eram os demais sócios da CH, J & T, além de Sérgio Motta e Ray Terrence e também para obter dados sobre a conta bancária, com US$ 368 milhões, de propriedade da CH, J & T, descoberta num banco nas Ilhas Cayman.

Nessa viagem Chelotti confirmou, com o advogado da Trident, Emerick Knowles, as informações obtidas antes e descobriu que as revelações mais decisivas sobre a CH, J & T poderiam ser obtidas facilmente, desde que a Polícia Federal estivesse de posse de cartas rogatórias, documentos emitidas pela Justiça brasileira e dirigidos às autoridades dos países envolvidos nas denúncias.

Chegando ao Brasil, Chelotti apresentou o relatório sobre sua missão de "Efetuar investigações concernentes à empresa CH, J & T Inc, nas Bahamas" (fls 355/ 356) e, não só sugeriu o pedido das cartas rogatórias, como deu detalhes de como fazê-lo. É o que se pode ver nesse trecho de seu relatório: "...para orientar a autoridade que preside o presente inquérito e facilitar na obtenção das respostas, os quesitos devem ser elaborados de forma objetiva, indagando-se claramente o que se busca de cada autoridade relacionada e não de maneira genérica, pois as generalidades esbarram na legislação vigente naquele país".

Menos de quinze dias depois do delegado Paulo de Tarso ter pedido à Justiça a emissão das cartas rogatórias, Fernando Henrique, acuado e apavorado com o avanço das investigações e a proximidade de novas descobertas e revelações, anunciou a demissão de Vicente Chelotti da direção da Polícia Federal.

No dia 22 de fevereiro, o juiz Federal Marcus Vinícius Reis havia recebido o pedido de quatro cartas rogatórias da Polícia Federal, dirigidas às Bahamas, às Ilhas Cayman, aos EUA e à Grã-Bretanha onde, como havia sugerido Chelotti, as perguntas foram feitas de forma clara e direta. Na carta para as Bahamas, indagava se Fernando Henrique, Serra, Covas, Motta e Ray Terrence eram sócios da CH, J & T e se eles possuíam contas naquele país; para as Cayman, se os mesmos elementos tinham contas bancárias naquele país, "especialmente no Coutts (Cayman) Limited; para os EUA, se a sucursal da Trident naquele país solicitou à sua congênere nas Bahamas a constituição da CH, J & T, com a identificação do cliente, dos sócios e diretores da empresa e para a Grã-Bretanha, solicitando as mesmas informações.

Depois de receber os pedidos da Polícia Federal, o juiz Marcus Vinícius encaminhou, no dia seguinte, uma solicitação de parecer à Procuradoria. Mas, por pressão direta do Planalto junto à Procuradoria o processo foi engavetado. As investigações foram paralisadas por dois meses e meio. Nada andou durante todo esse tempo e nem a Procuradoria enviou qualquer parecer à Justiça. Por coincidência, durante o mesmo período em que o pedido da Polícia Federal estava engavetado e retido na Procuradoria, era decidido se o Procurador-Geral da República, Geraldo Brindeiro, conhecido pela serventia ao Palácio, seria ou não indicado outra vez por Fernando Henrique para o cargo.

No dia 5 de maio, enquanto o delegado Paulo de Tarso ainda aguardava a liberação das cartas rogatórias, Fernando Henrique jogou toda a pressão sobre a Procuradoria e o Ministério da Justiça para que fossem interrompidas as investigações, sob a alegação de que os documentos eram "manifestamente falsos" e que fosse aberto imediatamente o processo contra meia dúzia de pessoas acusadas de terem supostamente divulgado as cópias do dossiê.

Por causa dessa pressão, as cartas rogatórias não foram expedidas pela Justiça e Fernando Henrique Cardoso conseguiu adiar um pouco a descoberta, pela Polícia Federal, de maiores detalhes sobre seus negócios criminosos nas Bahamas e nas Ilhas Cayman.

A exoneração de Chelotti abriu uma crise no comando da Polícia Federal e foi seguida, à época, de acusações feitas pela cúpula palaciana de que o chefe da Polícia Federal, teria passado a "chantagear" Fernando Henrique Cardoso", após o seu retorno das viagens e diligências no Caribe.

A mudança do comando da Polícia Federal foi uma jogada decisiva para que Fernando Henrique pudesse abafar e abortar as investigações conduzidas por Chelotti e Paulo de Tarso. Depois de demitir o diretor-geral da Polícia Federal, passou a ser decisivo para FH a nomeação de alguém que fosse conivente e concordasse em abafar as descobertas comprometedoras ao seu governo, feitas pelo inquérito, até aquele momento. Daí o atropelo de Fernando Henrique ao ministro da Justiça e a nomeação desastrosa de um torturador para o cargo de chefe da Polícia Federal. Depois de um longo tempo procurando alguém, Fernando Henrique indicou um indivíduo que era conhecido entre seus pares por possuir duas prerrogativas: a de serviçal e de inimigo de Chelotti.

FH conseguiu abortar momentaneamente as investigações. Impediu as rogatórias às Cayman, mas deixou claro para todo o país, com a sua atitude, que o que moveu a sua ação, desde o início, foi o pavor, o medo pânico das revelações dos crimes.

SÉRGIO CRUZ

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