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Verba para Estevão e Lalau era liberada pelo secretário de FH

Eduardo Jorge, que despachava na sala ao lado de FH, recebeu 138 ligações do juiz Nicolau

Luís Estevão foi cassado e, na sexta-feira, preso; o ex-juiz Nicolau está foragido; o dono oficial da Incal, Monteiro de Barros, foi preso e, agora, em liberdade, permanece com a espada da Justiça sobre a cabeça. É forçoso reconhecer que há algo faltando na apuração do escândalo da construção do prédio do TRT-SP. Falta, precisamente, o mais importante e o mais escandaloso: de onde veio o dinheiro que eles teriam desviado. Ou, melhor, quem forneceu a eles o dinheiro.

IMPUNIDADE

Sumiram R$ 169 milhões das verbas federais liberadas para o prédio. Porém, verbas federais não costumam chover sobre prédios em construção, sem que alguém do Executivo as libere. E se esse alguém não for capturado e julgado, o escândalo maior passa a ser a injustiça que resulta da impunidade do principal culpado, enquanto os culpados secundários são punidos.

Estevão era senador, Nicolau, juiz, Monteiro de Barros nem ao menos tinha qualquer cargo público. Nenhum deles era integrante do Executivo, nem muito menos tinham poder para liberar verbas, principalmente num governo que sistematicamente não cumpre o Orçamento aprovado pelo Congresso em tudo que se refere a verbas. As verbas para o prédio do TRT, aliás, eram um fenômeno: o governo não libera verbas para cestas básicas, para consertar estradas, para a Saúde, para a habitação ou para as Forças Armadas - mas nunca faltou dinheiro para o prédio que Nicolau erguia, apesar de nunca ficar pronto e estourar todas as previsões de custos.

Roubo, corrupção, desvio de dinheiro público não são especialidades de santos. Portanto, está afastada a hipótese de um milagre. Quem liberava as verbas era mesmo Eduardo Jorge, secretário particular de Fernando Henrique desde priscas

eras, cuja sala ficava ao lado da de seu chefe.

Quando a CPI do Senado que iria apurar supostas irregularidades no Judiciário finalmente achou um motivo para existir e atirou-se contra Nicolau, quebrando o seu sigilo telefônico, não poderia imaginar que encontraria 138 telefonemas para Eduardo Jorge - e outros tantos para um colega, Luís Estevão. Assim, acabou causando a desgraça de Estevão como preço para deixar Eduardo Jorge à solta.

Nem mesmo convocado para depor esse último elemento foi, apesar de entre o primeiro e o último dos 138 telefonemas, terem sido liberados R$ 200 milhões para que Nicolau exercesse sua produtiva atividade de empreendedor. Os telefonemas foram dados para a sala de Eduardo Jorge no Palácio do Planalto, para o seu escritório no comitê de campanha de Fernando Henrique - que ele coordenava - e para a sua casa, inclusive um na véspera do Natal, certamente, como disseram os dois, para apresentar cumprimentos por ocasião da importante festa cristã. Nicolau não escondeu que tratava com Eduardo Jorge da liberação das verbas. Nem podia esconder. Mas se disse isso é porque deixou de dizer o mais importante - e mais incriminador: o que ele oferecia a Eduardo Jorge em troca da liberação das verbas. Afinal, por que Eduardo Jorge liberaria verbas para esse prédio? Por amor à Justiça trabalhista, a qual acha, como seu chefe - e ele nunca teve nem traço de opinião diferente do chefe - uma inutilidade e um desperdício? Dinheiro para um prédio da Justiça trabalhista é xatamente o tipo de despesa que o bando do Planalto jamais faria, exceto em troca de algo bem concreto.

COISAS DO CHEFE

A função do secretário de Fernando Henrique no Planalto era mais do que conhecida: ele tratava dos pedidos de liberação de verbas, de acordo, evidentemente, com os interesses de seu chefe, da mesma forma que manipulava os fundos de pensão das estatais e filtrava as indicações para cargos no governo.

Não tinha, obviamente, qualquer poder para isso: o poder vinha da sala ao lado da sua. Como ele mesmo confirmou, Estevão lhe pediu um dia que liberasse dinheiro público para o "Correio Braziliense", jornal conhecido por sua indômita vocação governista. Eduardo Jorge mandou o pedido para o Banco do Brasil. Que, naturalmente, concedeu, porque o que ele pedia era o que Fernando Henrique queria, e nunca houve dúvidas a respeito. Então, que interesse de Fernando Henrique havia para que seu zeloso secretário liberasse as caudalosas verbas para Nicolau - e para Estevão, provável verdadeiro dono da empresa que oficialmente estava em nome de Monteiro de Barros?

Por coincidência, Monteiro de Barros tinha um parceiro, de nome Ferraz, parente de outro Ferraz - um dos proprietários de uma arapuca de Miami chamada Overland Advisory Services, que abria empresas-fantasmas nas Bahamas e Cayman, empresas-fantasmas como a CH, J & T, que segundo comprovou a Polícia Federal era propriedade de Sérgio Motta, caixa e sócio de Fernando Henrique, e que tinha uma conta com US$ 368 milhões num banco das Cayman, que entre seus titulares contava com o "chefe". Mencionamos a coincidência aqui apenas para fins de registro dos nossos bem informados leitores. Eduardo Jorge não foi amolado pela CPI. Nem perdeu a intimidade com Fernando Henrique. Segundo declarações que ele fez há um mês, "continuo cuidando das coisas do chefe, converso toda semana com o chefe, por telefone ou pessoalmente, tratando das contas de campanha e cuidando dos negócios".

Afastado do governo "estrategicamente", disse ter virado consultor e estar "marcando audiências" de seus clientes com Fernando Henrique.

GRUDE

Da manutenção dessa estreita relação se pode concluir que Fernando Henrique considerou o fornecimento de combustível monetário para Nicolau e Estevão como altamente correto por parte de Eduardo Jorge - ou seja, totalmente de acordo com seus próprios interesses, pois é só isso o que Fernando Henrique considera correto. O secretário estava, portanto, cuidando dos negócios do chefe. Realmente, ele não existe sem o chefe - trata-se do completo zero à esquerda. Somente existe e sempre existiu apenas grudado em Fernando Henrique. Nunca alguém o viu, pelo menos publicamente, em outra posição. O que não quer dizer que não usufrua de algumas vantagens: o que chamou a atenção sobre ele há um mês foi que, com uma aposentadoria de R$ 8,5 mil, e sempre tendo sido um notório pé-rapado, ter comprado um apartamento de um milhão de dólares.

CARLOS LOPES

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