Estatuto da criança e do Adolescente. Dez anos de... Pois é! Dez anos. E depois de todo esse tempo os governantes continuam omissos, ausente, silentes, reticentes quanto aos direitos que a "Constituição Cidadã" estabeleceu e o sábio legislador regulamentou por meio da Lei 8069/90 o Estatuto da Criança e do Adolescente. Dez anos... tempo suficiente para FHC ser senador, chanceler, ministro, presidente, presidente reeleito. Tempo mais que suficiente para vender o Brasil, para entregá-lo a um módico preço às grandes multinacionais. Pouco mudou. Mas não importa muito a dezena: bastam duas mãos humanas e completas, sem terem sofrido com os acidentes de trabalho na indústria do sisal, que mutila crianças desde a mais tenra infância. Fôssemos mamíferos de outra espécie, nossa fixação poderia ser o seis, o oito. Mas não importa, insisto. O que importa de fato é a constatação de que a Lei, concebida para ser um instrumento de construção do Estado Democrático, aquele ( com letras maiúsculas ), que representaria a ascensão a um patamar de civilização que nossa colonização escravagista e latifundiária, nossa elites corruptas e servis à metrópole do momento e aos funding loan, FMI, MEC-USAID e tantos outros instrumentos de subordinação ao capital internacional impediram e ainda impedem de florescer em nosso país. Bom, vamos ao que interessa: faz tempo que essa Lei foi "consensuada" no Congresso Nacional e ironia do destino dada à luz pelas mãos imundas- de Fernando Collor de Mello, Margarida Procópio, Antônio Magri e matilha. E o executivo, o judiciário e a aristocracia brasileira desde então impedem sua implantação, enquanto os meios de comunicação de massa, grandes redes e fiéis lacaios do grande capital e de tudo o que possa lhe trazer poder e lucros, insistem em apregoar seu fracasso e a atribuir-lhe a culpa pela violência urbana, pela falência do famigerado modelo "FEBEM", pela incapacidade da sociedade em educar seus filhos, pelo "surto" que nos privou do tetra na França e tudo o mais. Campanha sobre campanha, a imprensa embarca feliz, abanando o r... para as elites defendendo "queremos segurança", "mais polícia nas ruas", "basta! eu quero paz"... sempre apontando para longe das elites a responsabilidade pelo estado de penúria a que vem submetendo a população brasileira, culpabilizando as camadas mais pobres da sociedade pelo aumento da violência e propugnando o remédio amargo da repressão, do conceito de Estado-tutor X Sociedade-tutelada (vigiada). As críticas ao Estatuto da Criança e do Adolescente provém dessa matriz, predominantemente. São raciocínios toscos que culpabilizam, seguindo o modelo em que o finado Código de Menores se baseava, o adolescente e mesmo a criança pela ruína do modelo econômico e de organização social. Como conclusão lógica dessa linha de análise, preconizam a penalização do adolescente, defendem a redução da idade para imputabilidade penal como se o sistema penal brasileiro fosse um instrumento justo, eficiente e educativo para a superação da crise de nossa sociedade. Admirável! Se a economia vai mal, o desemprego altíssimo, os indicadores sociais colocando nosso país numa posição vergonhosa, temos que resolver o problema: vamos colocar os adolescentes na cadeia e não se fala mais nisso. Essa é a solução! Fazer valer o Estatuto na prática, prover o jovem com educação, cultura, saúde, formação profissional e, por conseguinte, dignidade, parece não significar nada para esses vermes abjetos que transformam as Leis cheias de belos direitos como se fossem escritas para os suecos ou os monegascos cumprirem em letras mortas, em intenções utópicas e intangíveis. Se o tráfico de drogas, juntamente com a prostituição e o tráfico de armas são os três setores mais poderosos da economia mundial, vamos atacar seus chefes: eles estão nas favelas, nas periferias, dormindo sob as marquises! Ora, faça-me um favor! Não somos imbecis! Querem me convencer que aqueles pobres diabos presos e humilhados como os "grandes traficantes" que moram nos morros do rio de Janeiro, que se dispõe a escrever livros em troca de uma mesada de mil e duzentos reais, são os mais perigosos criminosos do país? Vão se catar! Vão pra Brasília, pros "Congressos Nacionais" e "Alvoradas" da vida, que os tubarões estão por lá. Ney Moraes Filho Historiador/ Educador Social Hilton A. Silva Psicólogo/ Educador Social. |